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quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Telegram fecha 78 canais do Estado Islâmico desde atentados em Paris

Usuários do aplicativo móvel de mensagens encriptadas veiculavam propaganda do grupo

POR CARLOS ALBERTO TEIXEIRA* COM SITES 19/11/2015 15:31 / atualizado 19/11/2015 16:02
Tela de abertura do app Telegram - Reprodução

RIO – O Telegram, aplicativo de mensagens criptograficamente seguras, teve 78 canais bloqueados desde os atendados em Paris. Os canais de divulgação, que abrangiam 12 idiomas, serviam para veicular propaganda para o grupo terrorista Estado Islâmico.

Além do bloqueio dos canais, os responsáveis pelo Telegram melhoraram as ferramentas internas para relatar usos ilegais ou questionáveis do software. A decisão veio depois que o EI divulgou instruções a seus membros sobre como evitar ter suas mensagens interceptadas por ativistas e governos, já que as trocas de textos e arquivos dentro do app são protegidas por uma armadura digital de criptografia.

O Telegram funciona de maneira muito semelhante ao afamado WhatsApp, do Facebook. Tem 60 milhões de usuários, contra 900 milhões do WhatsApp. Porém, o Telegram tem algumas vantagens, sendo uma das principais a possibilidade de responder pontualmente a posts específicos dentro de grupos, além da privacidade das comunicações.

O QUE É O TELEGRAM

Trata-se de um serviço de mensagens instantâneas baseado na nuvem e que tem como características principais a privacidade reforçada e a disponibilidade em diversas plataformas contemplando tanto sistemas móveis quanto desktop — Android, Firefox OS, iOS, Ubuntu Touch e Windows Phone no universo móvel; e Windows, OS X e Linux no universo desktop, com versão para web (para qualquer navegador) e uma específica para Chrome.

O sistema permite troca de mensagens, fotos, áudio, “stickers” (figurinhas estilizadas), vídeos e qualquer tipo de arquivo até o tamanho de 1,5GB. Foi lançado em 14 de agosto de 2013 pelos irmãos russos Pavel e Nikolai Durov, cofundadores da rede social russa VK (VKontakte). No Telegram, o primeiro cuida das finanças e da ideologia, e o segundo, da tecnologia, tendo inventado o protocolo MTProto — seguro e veloz — em que se baseia o software.

Apesar de tanto os irmãos quanto muitos dos desenvolvedores do app serem russos, o Telegram não tem qualquer conexão com a Rússia, nem legal, nem fisicamente. Seu quartel-general fica em Berlim, na Alemanha, onde os irmãos Durov vivem em exílio.

Em 22 de setembro, o app lançou a funcionalidade de canais (channels, em inglês), que permite divulgar comunicados para grandes audiências e que era utilizada pelos integrantes do EI.
REAÇÃO DOS RESPONSÁVEIS
Pavel Durov, cofundador do Telegram - Reprodução / Facebook - https://goo.gl/hN0AgI

No canal oficial no serviço — o “Telegram News” —, que tem quase 35 mil assinantes, o app informou:

“Ficamos perturbados ao saber que os canais públicos do Telegram estavam sendo usados pelo Estado Islâmico para difundir sua propaganda. Estamos cuidadosamente revisando cada relato enviado a nós pelo e-mail abuse@telegram.org e estamos bloqueando esses canais. Estamos também esta semana introduzindo um modo mais fácil para nossos usuários denunciarem conteúdo público questionável no Telegram”.

Logo depois, o Telegram confirmou que tiraria do ar conteúdo ilegal, mas que tinha compromisso com a liberdade de expressão.

“Por exemplo, se criticar o governo é ilegal em um país, o Telegram não tomará parte em tal censura politicamente motivada, que vai contra os princípios de nossos fundadores. Muito embora, de fato, tenhamos bloqueado bots [robôs de software que atuam na internet] e canais terroristas (por exemplo, do Estado Islâmico), não bloquearemos ninguém que expresse suas opiniões de forma pacífica”.

Segundo o “Telegraph”, no início da semana, o canal “Khilafah News” no Telegram — um dos canais bloqueados —, que supostamente estava alinhado ao EI, divulgou uma lista com cinco dicas para evitar hackeamento. As instruções incluíam usar uma VPN (Virtual Private Network) e evitar mensagens diretas (DM) no Twitter.

Especialistas acreditam que a cobertura na mídia mundial do caso do Telegram ligado ao Estado Islâmico deve causar um aumento no número de usuários do aplicativo.

ESPIONAGEM E INFILTRAÇÃO

O Telegram vem despertando interesse nas comunidades de inteligência tantos dos EUA quanto da Rússia. A esse respeito, o canal "Telegram News" no app divulgou nesta quinta-fera uma fala de Pavel Durov no Facebook a esse respeito: “Minha impressão é que as agências dos EUA têm mais recursos e podem empregar pessoas mais inteligentes [do que as agências russas]. Algumas vezes quando eu estava visitando os Estados Unidos fui abordado por agentes do FBI me fazendo um monte de perguntas óbvias e persistentes. A NSA também tentou secretamente recrutar alguns dos desenvolvedores do Telegram como informantes durante nossa curta visita a San Francisco este ano para participar do Google I/O. Tais atividades invasivas são a razão pela qual não confio em nenhum aplicativo de mensagens encriptadas baseado nos EUA. Se as agências locais são tão ativas mesmo se você passa apenas uma semana no país, imagine como deve ser se você está realmente morando lá o tempo todo. As chances de que sua organização não termine sendo infiltrada por eles são próximas de 0%”.

O site oficial do Telegram é <http://telegram.org>.

* (O repórter utiliza Telegram diariamente e recomenda seu uso)

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